SETEMBRO AMARELO | Falar de saúde mental também é falar de trabalho


Estudo brasileiro aponta crescimento de 60,1% dos suicídios entre trabalhadores analisados em uma década; em Santa Catarina, pesquisa recente revela avanço significativo das mortes em Chapecó. Para o SINDPD/SC, prevenção também exige enfrentar sobrecarga, assédio, jornadas extensas e falta de desconexão
Falar de prevenção ao suicídio também exige falar sobre trabalho.
O suicídio é um fenômeno complexo e multicausal, que não pode ser atribuído a uma única circunstância. Mas isso não significa retirar o trabalho dessa discussão. Ao contrário: pesquisas brasileiras vêm demonstrando que determinadas condições de trabalho, como assédio, demandas excessivas, baixa autonomia, insegurança no emprego e conflitos entre vida profissional e pessoal, podem estar associadas ao aumento do risco de suicídio e de tentativas de suicídio.
Neste Setembro Amarelo, o SINDPD/SC chama a atenção para uma dimensão que ainda recebe menos espaço do que deveria no debate sobre saúde mental: as condições em que as pessoas trabalham.
Para quem atua em tecnologia, a discussão é particularmente necessária. Intensificação do ritmo, prazos cada vez menores, mudanças permanentes de ferramentas e conhecimentos, equipes reduzidas, jornadas prolongadas, plantões e expectativa de disponibilidade constante fazem parte da realidade de muitos profissionais.
Se a organização do trabalho participa do processo de adoecimento, não basta transferir toda a responsabilidade para o trabalhador. A organização do trabalho também precisa mudar.
Suicídios cresceram 60,1% entre trabalhadores analisados no Brasil
Um estudo publicado em 2024 na revista científica Ciência & Saúde Coletiva analisou os suicídios registrados no Brasil entre 2010 e 2019 entre pessoas de 14 a 65 anos, utilizando dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), além de informações do IBGE, da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) e de outras bases ocupacionais.
Os pesquisadores identificaram uma tendência crescente sustentada dos suicídios entre trabalhadores com ocupação identificada: a variação percentual proporcional foi de 60,1% no período. Entre os homens, o crescimento foi de 62,8%; entre as mulheres, de 51,4%.
No conjunto da população em idade ativa analisada, a taxa apontada pelo estudo foi de 8,1 suicídios para cada 100 mil pessoas, e o risco entre homens foi 3,5 vezes o observado entre mulheres.
Quando considerados os indivíduos de 14 a 65 anos com ocupação identificada pela Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), foram registrados 76.808 suicídios entre 2010 e 2019.
Os pesquisadores também chamam atenção para a ampliação das ocupações atingidas e defendem que as características do trabalho sejam consideradas nas políticas de vigilância e prevenção ao suicídio.
Os números não permitem afirmar que o trabalho seja responsável por essas mortes. O que eles demonstram é que a dimensão ocupacional não pode ser ignorada quando se discute prevenção.
Assédio, pressão, medo do desemprego: o que dizem as pesquisas
Outra pesquisa brasileira, publicada na revista Saúde em Debate, analisou a literatura científica disponível sobre suicídio, tentativa de suicídio e fatores psicossociais relacionados ao trabalho.
Após avaliar 1.427 referências, os pesquisadores selecionaram 15 estudos que atendiam aos critérios científicos estabelecidos.
Foram encontradas associações significativas entre risco de suicídio e/ou tentativa de suicídio e fatores como assédio no trabalho, demandas elevadas, baixa autonomia, baixo apoio social, conflitos entre trabalho e família, medo de perder o emprego e insatisfação com o trabalho.
O estresse grave no trabalho também apareceu associado ao risco quando combinado com estresse doméstico grave.
Esse ponto é fundamental: prevenção ao suicídio não pode ser reduzida a uma mensagem para que a pessoa individualmente “se cuide melhor”, seja mais resiliente ou aprenda a administrar a pressão.
Existem riscos que estão na própria forma como o trabalho é organizado.
E quem trabalha com tecnologia conhece essa pressão
No setor de tecnologia, há pesquisas brasileiras apontando características da organização do trabalho que merecem atenção.
Estudo publicado em 2024 nos Cadernos de Psicologia Social do Trabalho, da Universidade de São Paulo (USP), analisou o processo de desgaste mental relacionado ao trabalho em tecnologias da informação.
Os pesquisadores lembram que estudos brasileiros sobre trabalhadores de TI já identificavam, desde a década de 1980, problemas relacionados ao estresse, conflitos familiares e até abandono da profissão.
Na realidade contemporânea, a pesquisa aponta elementos como intensificação dos ritmos de trabalho, solicitação de disponibilidade praticamente irrestrita para a atividade e mudanças constantes nas formações, ferramentas e conhecimentos exigidos dos profissionais.
É uma descrição que dialoga diretamente com situações enfrentadas diariamente pela categoria.
São mensagens depois do expediente. Plantões. Prazos apertados. Equipes sobrecarregadas. Cobrança por atualização permanente. Metas. Horas extras. Reuniões que avançam sobre o horário de descanso. Trabalho remoto que, em determinadas situações, elimina a fronteira entre casa e empresa.
A tecnologia permitiu trabalhar de praticamente qualquer lugar.
Isso não pode significar trabalhar a qualquer hora.
Quase meio milhão de benefícios por transtornos mentais em apenas um ano
Os números da Previdência Social reforçam o tamanho do problema da saúde mental no mundo do trabalho brasileiro.
Dados referentes a 2024 mostram que foram concedidos 481.476 benefícios previdenciários relacionados a transtornos mentais e comportamentais.
Em 2019, haviam sido 235.935.
Isso representa um crescimento de 104,07% em cinco anos.
Há, entretanto, outro número que merece atenção: dos 481.476 benefícios concedidos em 2024, apenas 9.822 — 2,04% — foram oficialmente reconhecidos como relacionados ao trabalho.
A Fundacentro chama atenção justamente para a possibilidade de subnotificação do nexo ocupacional. Entre os obstáculos apontados está a dificuldade de reconhecer a associação entre características do trabalho e transtornos psíquicos.
Além disso, os dados previdenciários abrangem trabalhadores formais, deixando de fora parte significativa da população ocupada.
Santa Catarina: estudo de 2026 acende alerta
Em Santa Catarina, uma pesquisa publicada em julho de 2026 na Revista Brasileira de Epidemiologia traz um recorte particularmente importante.
O estudo analisou os suicídios registrados em Chapecó entre 2006 e 2024, considerando tendência temporal, ocupação e distribuição espacial das ocorrências e comparando os resultados locais com o cenário nacional.
Foram registrados 392 óbitos por suicídio no município durante o período.
A taxa anual média padronizada foi de 8,8 mortes por 100 mil habitantes.
As taxas brutas anuais variaram de 4,8 por 100 mil habitantes em 2010 para um pico de 14,9 por 100 mil em 2022.
Os pesquisadores identificaram aumento estatisticamente significativo tanto no Brasil quanto em Chapecó, com crescimento mais acentuado no município catarinense.
O estudo também recupera outro dado relevante: em 2019, Santa Catarina apresentou a segunda maior taxa de mortalidade por suicídio entre os estados brasileiros, e a região Oeste registrou, em 2022, a maior taxa entre as regiões catarinenses.
Na análise das ocupações disponível para parte do período estudado em Chapecó, trabalhadores da construção civil e da agricultura apareceram entre os grupos mais atingidos.
Não há, nesse levantamento, evidência que permita atribuir aos profissionais de TI uma taxa específica de suicídio. Esse cuidado é fundamental para uma leitura responsável dos dados.
O que os números catarinenses reforçam é outra conclusão: entender quem são essas pessoas, onde vivem e em que trabalham pode ser fundamental para construir políticas de prevenção mais eficazes.
Risco psicossocial agora está expressamente contemplado na NR-1
Desde 26 de maio de 2026, está em vigor a nova redação do capítulo de Gerenciamento de Riscos Ocupacionais da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1).
A mudança incorporou expressamente os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho ao gerenciamento dos riscos ocupacionais.
Na prática, saúde mental não pode ser tratada apenas como uma questão particular do trabalhador ou como assunto restrito a campanhas internas de conscientização.
A organização do trabalho precisa entrar na análise.
Sobrecarga, pressão excessiva, assédio, falta de autonomia e outras condições relacionadas à forma como o trabalho é organizado precisam ser identificadas e gerenciadas quando configurarem fatores de risco psicossocial.
Saúde mental também é saúde e segurança no trabalho.
Burnout não se resolve com palestra motivacional
Para o SINDPD/SC, empresas não podem falar em saúde mental durante o Setembro Amarelo e, ao mesmo tempo, manter ambientes marcados por sobrecarga, jornadas excessivas, pressão permanente e desrespeito ao tempo de descanso.
Não basta oferecer palestra motivacional.
Não basta disponibilizar aplicativo de meditação.
Não basta dizer ao trabalhador que ele precisa desenvolver resiliência ou “administrar melhor o estresse”.
Medidas individuais de cuidado podem ser importantes, mas não substituem mudanças necessárias na organização do trabalho.
Quando a origem de um risco está nas condições de trabalho, é também sobre essas condições que a prevenção precisa atuar.
O expediente acabou. O trabalho também precisa acabar
Para os profissionais de tecnologia, uma das questões centrais dessa discussão é o direito à desconexão.
Celulares, notebooks, aplicativos de mensagens e plataformas corporativas apagaram muitas das barreiras físicas que antes delimitavam o início e o fim da jornada.
Uma mensagem enviada às 23h pode levar segundos para ser escrita. Para quem a recebe, entretanto, ela pode significar a reativação do trabalho quando a jornada deveria ter terminado.
Descanso não é período de espera entre uma demanda e outra.
O trabalhador precisa ter o direito de desligar o computador e também se desligar do trabalho.
Por isso, o direito à desconexão integra as reivindicações defendidas pelo SINDPD/SC na Campanha Salarial 2026/2027.
Redução da jornada também é saúde
A discussão passa ainda pela duração da jornada.
A tecnologia aumentou a produtividade, automatizou processos, acelerou tarefas e transformou profundamente a capacidade produtiva das empresas.
É legítimo, portanto, perguntar:
Quanto desse ganho tecnológico está sendo devolvido ao trabalhador em forma de tempo para viver?
O SINDPD/SC defende a jornada de 36 horas semanais como parte de uma agenda que coloca qualidade de vida, saúde e valorização profissional no centro das relações de trabalho.
Reduzir jornada significa ampliar tempo para descanso, família, lazer, formação, convivência e vida fora do emprego.
Não se trata de produzir menos.
Trata-se de discutir como os ganhos de produtividade serão distribuídos entre capital e trabalho.
Trabalho não pode custar a saúde. Muito menos a vida.
O Setembro Amarelo precisa servir para falar sobre acolhimento, escuta e acesso a atendimento em saúde mental.
Mas, para uma entidade que representa trabalhadores, precisa servir também para fazer uma pergunta mais difícil:
Que ambientes de trabalho estamos construindo?
Prevenção exige olhar para as pessoas, mas também para as estruturas às quais elas estão submetidas.
Combater assédio é prevenção.
Enfrentar sobrecarga é prevenção.
Respeitar a jornada é prevenção.
Garantir descanso é prevenção.
Combater a precarização é prevenção.
Defender o direito à desconexão é prevenção.
Construir ambientes de trabalho seguros e saudáveis também é defender a vida.
Se o trabalho faz parte do problema, procure também o seu sindicato.
PRECISA DE AJUDA?
Se você está passando por sofrimento emocional ou pensamentos de suicídio, procure ajuda.
CVV — Centro de Valorização da Vida: 188
Atendimento gratuito, 24 horas por dia.
Em situação de emergência, procure imediatamente um serviço de saúde ou acione o SAMU pelo telefone 192.
FONTES E REFERÊNCIAS
Ciência & Saúde Coletiva (2024) — Quando a saída é a própria morte: suicídio entre trabalhadores e trabalhadoras no Brasil. Estudo baseado em dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), IBGE, RAIS e outras bases, referente ao período de 2010 a 2019.
Saúde em Debate — Risco de suicídio no trabalho: revisão integrativa sobre fatores psicossociais. Revisão da literatura científica sobre fatores psicossociais relacionados ao trabalho associados ao risco e às tentativas de suicídio.
Cadernos de Psicologia Social do Trabalho — Universidade de São Paulo (USP), 2024 — Processo de produção do desgaste mental relacionado ao trabalho em tecnologias de informação: o caso de Maria Isabel. Pesquisa sobre desgaste mental e organização do trabalho no setor de TI.
Fundacentro / Previdência Social (2026) — Dados sobre a concessão de benefícios relacionados a transtornos mentais e comportamentais, incluindo a evolução entre 2019 e 2024 e o reconhecimento do nexo com o trabalho.
Revista Brasileira de Epidemiologia (2026) — Suicídio e ocupação: padrões espaciais em Chapecó (SC) e contextualização da tendência temporal no cenário nacional, 2006–2024. Estudo sobre mortalidade por suicídio, ocupações e distribuição espacial em Chapecó, com contextualização dos dados nacionais e catarinenses.
Ministério do Trabalho e Emprego — NR-1 — Norma Regulamentadora nº 1, Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), com inclusão expressa dos fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho.
Centro de Valorização da Vida (CVV) — Serviço gratuito de apoio emocional e prevenção do suicídio pelo telefone 188, disponível 24 horas.







