Consciência Negra: a tecnologia avança, mas a igualdade racial precisa avançar também


Dados oficiais mostram que trabalhadores pretos e pardos recebem menos por hora, mesmo com ensino superior completo. Para o SINDPD/SC, enfrentar o racismo exige mudanças nas contratações, nos salários, nas oportunidades e nas relações de trabalho.
O setor de tecnologia constrói soluções que transformam a sociedade. Mas falar em inovação também exige enfrentar uma pergunta: quem tem oportunidade de participar dessa transformação, ser reconhecido e chegar aos espaços de decisão?
Neste Novembro, Mês da Consciência Negra, o SINDPD/SC chama a categoria a discutir o racismo no mundo do trabalho. Uma realidade que precisa ser enfrentada tanto nas manifestações explícitas de discriminação quanto nos critérios de contratação, remuneração e crescimento profissional.
A população negra, formada por pessoas pretas e pardas, corresponde a 55,5% dos brasileiros, considerando os percentuais divulgados pelo IBGE no Censo 2022. Essa presença majoritária, porém, não se traduz automaticamente em igualdade de oportunidades.
A desigualdade aparece no valor da hora trabalhada
Segundo a Síntese de Indicadores Sociais 2025, do IBGE, em 2024 o rendimento médio real por hora de todos os trabalhos era de R$ 24,60 para pessoas brancas e de R$ 15 para pessoas pretas ou pardas. A diferença era de 64% em favor da população branca.
A distância permanecia entre trabalhadores com ensino superior completo: R$ 43,20 por hora para brancos e R$ 29,90 para pretos ou pardos, uma diferença de 44,6%. Esses números abrangem o mercado de trabalho brasileiro em geral, não exclusivamente a tecnologia.
Os dados mostram que a desigualdade de rendimentos persiste mesmo quando se compara um mesmo nível de escolaridade. Ao mesmo tempo, não representam uma comparação entre pessoas necessariamente na mesma função, empresa ou jornada. São indicadores de uma distância estrutural que exige investigação e enfrentamento, sem substituir a análise de cada situação concreta.
Para um setor que valoriza formação e conhecimento especializado, a consequência é direta: ampliar a qualificação precisa caminhar junto com a revisão das condições de acesso, reconhecimento e progressão profissional.
Quem entra na tecnologia e quem chega à liderança?
Um levantamento setorial ajuda a observar essa discussão dentro das empresas. O primeiro Censo de Diversidade da Brasscom, com dados coletados entre abril e outubro de 2024, reuniu aproximadamente 20,6 mil participantes. Entre os respondentes, 62,1% eram brancos, 19,5% pardos e 15,5% pretos.
É necessário considerar o alcance da pesquisa: trata-se de um levantamento de uma associação empresarial, com participantes de empresas associadas, e não de uma estatística oficial representativa de todos os trabalhadores de TI. Seus resultados descrevem a amostra pesquisada.
Ainda assim, a discussão precisa chegar a cada local de trabalho: quem é contratado? Quem recebe formação custeada pela empresa? Quem participa dos projetos de maior visibilidade? Quem é promovido? Quem chega à gestão?
Avaliar diversidade apenas pelo número total de contratações deixa de fora questões fundamentais. A presença de profissionais negros precisa ser acompanhada de condições para permanecer, desenvolver a carreira e exercer poder de decisão.
O racismo também precisa ser enfrentado no cotidiano
Comentários depreciativos sobre cabelo e aparência, associação de pessoas negras a estereótipos e questionamentos sobre sua competência baseados na cor da pele não devem ser normalizados como brincadeira.
A discriminação também pode aparecer em decisões profissionais, quando critérios raciais produzem exclusão ou tratamento desigual no acesso ao emprego e às oportunidades. O Ministério do Trabalho e Emprego destaca que a discriminação pode destruir ou alterar a igualdade de oportunidades e de tratamento no trabalho.
É preciso observar o contexto e apurar as situações relatadas. Nem todo conflito profissional decorre de racismo, mas denúncias de discriminação racial não podem ser descartadas sem investigação nem reduzidas a um problema de relacionamento entre colegas.
A responsabilidade pelo enfrentamento não pode ser transferida exclusivamente a quem sofre a violência. Empresas, gestores e equipes precisam agir para interromper práticas discriminatórias e impedir sua repetição.
Acesso à internet não significa igualdade de oportunidades
O Brasil avançou na expansão do acesso à rede. Segundo a PNAD Contínua do IBGE, em 2025 utilizaram a internet 91,3% das pessoas brancas, 90% das pretas e 89,9% das pardas, entre a população de 10 anos ou mais. O indicador considera o uso nos três meses anteriores à entrevista.
Essa aproximação é relevante, mas usar a internet não equivale a ter as mesmas condições para estudar programação, acessar equipamentos adequados, aprender outro idioma ou construir uma carreira em tecnologia.
Por isso, inclusão digital e inclusão profissional precisam ser tratadas de forma articulada. A ampliação do acesso deve ser acompanhada de educação, formação e oportunidades de trabalho com direitos.
Postar sobre diversidade é fácil. Garantir igualdade exige ação
Para o SINDPD/SC, o compromisso das empresas deve aparecer na gestão e nas condições de trabalho. Entre as medidas que precisam integrar essa responsabilidade estão:
Critérios transparentes de contratação, avaliação e promoção, com exigências relacionadas às atividades exercidas.
Acompanhamento das remunerações e oportunidades por raça e gênero, para identificar desigualdades e suas causas.
Acesso à formação, aos projetos estratégicos e aos cargos de liderança.
Canais de denúncia acessíveis, com apuração responsável e proteção contra retaliações.
Formação de gestores e equipes para prevenir e enfrentar a discriminação.
A atenção às mulheres negras também deve atravessar essas medidas. Analisar raça e gênero em conjunto ajuda a identificar situações que uma avaliação apenas geral da equipe pode deixar invisíveis.
Campanhas de novembro podem abrir o debate. A resposta precisa continuar nos demais meses, com responsabilidades definidas e acompanhamento dos resultados.
Sofreu ou presenciou discriminação? Procure orientação
Trabalhadores que sofreram ou presenciaram discriminação racial podem procurar o SINDPD/SC para orientação. Registrar datas, locais, pessoas presentes e preservar mensagens, e-mails e outros documentos disponíveis ajuda a relatar os fatos com precisão.
O Ministério do Trabalho e Emprego também disponibiliza um canal digital para denúncias trabalhistas. Nesse serviço, a denúncia geral exige identificação e conta gov.br, mas os dados pessoais do denunciante são mantidos sob sigilo durante uma possível fiscalização.
Uma luta para o ano inteiro
O 20 de novembro, Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, é feriado nacional por determinação da Lei nº 14.759/2023. A data reforça o reconhecimento da história e da resistência da população negra e a necessidade de enfrentar o racismo no presente.
Para o SINDPD/SC, combater o racismo integra a defesa de quem trabalha. Significa lutar para que a cor da pele não determine o salário, o respeito recebido ou as possibilidades de crescimento profissional.
A tecnologia avança. A igualdade racial precisa avançar também.








