Nota do SINDPD/SC – contra a barbárie, pela vida e por justiça

O Brasil já viu esse filme antes. E sabe como ele termina quando a violência é naturalizada, relativizada ou tratada como “brincadeira de jovens”.
Em 1997, cinco jovens de classe média alta de Brasília atearam fogo no corpo do indígena Galdino Pataxó, enquanto ele dormia em um ponto de ônibus. Galdino estava na capital federal para lutar por direitos, por demarcação de terras, por dignidade para seu povo. Foi queimado vivo. O crime chocou o país, gerou comoção, protestos, promessas de justiça. Houve condenação. Mas houve também benefícios, progressão de pena e, poucos anos depois, liberdade. Hoje, esses mesmos jovens estão plenamente reinseridos, ocupando cargos no Estado, recebendo altos salários, enquanto a vida do indígena Galdino nunca pôde ser devolvida.
Passaram-se quase 30 anos. E os sinais de alerta continuam sendo ignorados.
Em Florianópolis, o brutal assassinato do cão comunitário Orelha, espancado a pauladas por adolescentes, não pode ser tratado como um fato isolado, menor ou desconectado da história de violência estrutural que marca nossa sociedade. Orelha vivia há quase dez anos na Praia Brava, era cuidado pela comunidade, não oferecia ameaça alguma. Foi torturado até a morte. E, segundo as investigações, não se trata apenas da ação de adolescentes, mas de um contexto que envolve conhecimento dos pais, tentativa de coação de testemunhas, uso de arma de fogo por adulto da família e até fuga temporária do país enquanto o caso ganhava repercussão.
É preciso dizer com todas as letras: crueldade não surge do nada. Quem espanca um animal indefeso, quem tenta afogá-lo, quem intimida testemunhas para esconder um crime, está aprendendo — ou sendo autorizado — a agir com violência, impunidade e desprezo pela vida.
A história do indígena Galdino nos ensina exatamente isso. Aqueles jovens também foram tratados, à época, como “meninos”, como autores de um “excesso”, como pessoas que “não tinham intenção”. O resultado foi a banalização do horror. E o recado que ficou foi perigoso: o de que certas vidas valem menos.
O SINDPD/SC se soma à indignação popular e cobra punição exemplar no caso do assassinato do cão Orelha. Não por vingança. Mas por justiça. Por proteção da vida. Por responsabilidade social. Porque impunidade mata — hoje um animal, amanhã um ser humano, como já aconteceu antes.
Defender os direitos dos trabalhadores, dos povos indígenas, dos animais e da sociedade como um todo é defender a vida em todas as suas formas. Não aceitaremos silêncio, omissão ou conivência. A violência precisa ser interrompida no início, não depois que mais uma vida for destruída.
Nenhuma vida a menos.







